quarta-feira, 8 de julho de 2015

se7en

            gol da alemanha.
            eu não torci contra o brasil naquele jogo, no dia oito de julho do ano passado. eu não gosto de torcer contra algum time – no máximo sou capaz de ser a favor de outro que não seja o meu, mas torcer contra eu não dou conta. porém, naquele dia, há um ano, também não torci a favor da alemanha. eu fiquei neutro, consciente do milagre a ser realizado pela seleção brasileira em vencer a partida. logo, diante do contexto, o meu sentimento, a cada gol, foi de espanto. e de esperança: quem sabe ali estivesse o divisor de águas pro futebol brasileiro. ah, mas eu sou tolo. agora, um ano depois, considero válida toda forma de riso e deboche sobre o resultado, afinal, não foi uma tragédia – justificativa de muitos. tragédia é outra coisa, queridos. também, aquela goleada não ocorreu devido a um apagão do time, ela é o tombo inevitável de uma cultura futebolística arrogante, cujo discurso insiste em vocábulos como tradição, história, camisa.
gol da alemanha.
            aliás, o único motivo que me leva, hoje em dia, a torcer pelo brasil no futebol atende pelo nome de neymar. eu gosto desse menino, gosto da habilidade dele e da irreverência, aliada à coragem, em muitos lances. inclusive, considero uma injustiça ser ele, tendo apenas vinte e três anos, o capitão do time e ter sobre si toda a responsabilidade pelas jogadas de gol. e, com a ausência dele naquela semifinal, eu não tinha por que torcer pela seleção brasileira – ser torcedor do flamengo já me faz atingir o limite do estresse em acompanhar tanto jogador ruim vestindo a mesma camisa.
            gol da alemanha.
            é esse o motivo pelo qual torci pela argentina na copa do mundo e na copa américa: eles têm o melhor jogador do mundo nos últimos quase dez anos, o messi. pra mim, o mais decisivo e habilidoso do futebol mundial, a ser comparado atualmente apenas ao cristiano ronaldo – completo, porém, menos genial, a meu ver. e foi pelo messi que torci na copa do ano passado, uma pena ele não a ter vencido. na verdade, azar da copa zico e messi – este último até agora – não serem seus campeões.
            gol da alemanha.
            por esse motivo, citado no parágrafo anterior, tenho de lidar com alguns torcedores apaixonados pela seleção brasileira e o principal argumento do qual se utilizam: vai morar na argentina, então. ao que eu respondo: não vou, obrigado. mais ainda: não vou porque não sou obrigado. e além disso: não vou porque não sou obrigado a torcer pela seleção do país onde nasci. ela não me representa, ela é apenas o agrupamento de jogadores nascidos num mesmo lugar, porém, diante da acentuada globalização vivenciada por nós, tal segmentação territorial perde seu sentido e chega ao limite da ignorância argumentativa, que é a obrigatoriedade bairrista. o futebol tenta ser bastante ditatorial, às vezes.
            gol da alemanha.
            o último momento quando torci pelo brasil em alguma copa do mundo foi na de dois mil e dois. inclusive, recentemente assisti aos gols das sete vitórias naqueles sete jogos no japão e na coréia e senti saudade daquele time – lembro-me das nossas reclamações, à época, ao rivaldo. pobre de nós, mal sabíamos quem seriam as ruindades de hoje em dia. e, do mesmo modo como atualmente torço pela argentina, em dois mil e seis eu torci por zidane e sua frança e, em dois mil e dez, pela espanha e sua equipe envolvente. sendo assim, não sei para quem torcerei em dois mil e dezoito, afinal, vivo numa democracia que me permite tal escolha puramente individual, contra a qual não encontrei argumento capaz de me fazer mudar de ideia.
            gol da alemanha.
            até mesmo porque o futebol mundial tem se apresentado muito mais interessante a ser assistido. e a culpa da insuficiência técnica dos nossos campeonatos pode ser creditada aos torcedores imediatistas, aos cartolas nacionais e sua politicagem visando a lucros pessoais, à imprensa bajuladora, à comissão técnica arrogante, todos incapazes de projetar uma melhora através de mudanças a longo prazo. somos o país no qual os times – em sua maioria – não conseguem trocar dez passes ou ficar um minuto com a bola nos pés; o país onde três derrotas consecutivas são suficientes para demitir um técnico; o país que veste a camisa da sua seleção de quatro em quatro anos e ainda se considera patriota.
            gol da alemanha.
            assisti ao filme “se7en”, nos últimos dias – um número agora representativo da nossa cultura futebolística. é um bom filme de ação e suspense, mas eu esperava mais dele, levando em conta a sinopse. gosto das atuações do brad pitt, ele, mesmo bastante novo, atua bem neste, assim como o – já em noventa e cinco – veterano samuel l. jackson. é um filme no qual os jogos mortais parecem ter se inspirado, tamanha semelhança entre os “vilões”, entre aspas justamente porque as justificativas dos chamados serial killers questionam a brutalidade envolvida em cada assassinato, fazendo-nos repensar, talvez, a dualidade vilão versus herói, maldade versus bondade. e está aí o interessante do filme, essa possibilidade de repensar certezas. um questionamento que eu esperava encontrar no futebol brasileiro há um ano, porém, o discurso arrogante, prepotente e cego se mantém atual e, parece, indissolúvel.
            gol do brasil.

            alguém lembra do gol do oscar?

ítalo puccini

sexta-feira, 3 de julho de 2015

o gol do jogo

            aos trinta minutos do primeiro tempo, mais ou menos, saiu o gol do jogo na arena joinville, na última quarta-feira. após sucessivos lances nos quais a torcida do jec esbravejou contra a arbitragem, pela não marcação de possíveis faltas favoráveis ao time local, eis que o bandeirinha assinalou um impedimento em um lance de ataque do flamengo. o estádio veio abaixo. foi bonito de ver, apesar de, no momento, eu ter ficado um pouco confuso, perguntando-me se havia perdido algum lance magnífico em algum outro ponto do campo. o fox, então, disse-me: eis o gol do jogo.
            aliás, eu e o fox assistimos à peleja nas cadeiras, ou seja, entre torcedores do jec, como se fôssemos um deles – enquanto o pai e o fran vestiram o manto rubro-negro e foram ao setor visitante, como bons flamenguistas. bem verdade que em trinta e seis jogos do joinville nessa primeira divisão eu torcerei a favor, apenas em dois abrirei uma exceção, afinal, uma vez flamengo, sempre e em primeiro lugar, flamengo. então, ficamos camuflados no meio dos demais jequeanos, algo não muito difícil de se fazer – já cansei de torcer pelo fla estando na torcida do coxa, do paraná ou do atlético-pr, por exemplo. porém, em nenhuma delas eu observo o complexo de inferioridade que envolve a arena joinville, fator preponderante, a meu ver, para a vibração proveniente de uma marcação de impedimento.
a mania de perseguição impera nos torcedores representantes da maior torcida do estado de santa catarina, algo por si só contraditório. e os culpados, para eles, são vários: globo, rbs, cbf, federação catarinense de futebol, times de torcida grande e arbitragem. eu gosto do jec, torço pelo sucesso do jec, pago mensalidade como sócio do jec, mas não compactuo de tal atitude vitimada. nas arquibancadas, observo, impera o ódio contra o outro, os argumentos tornam-se escassos e tolo sou eu em esperar coerência em um estádio de futebol, eu sei.
analisando agora, mais de vinte e quatro horas depois da partida, aquele lance mencionado no início desta croniqueta – que a intitula, inclusive – eu alcanço algumas interpretações possíveis para tamanha comemoração por parte da torcida local a um lance tão comum no futebol, a partir do qual pouco se tem a comemorar, afinal, não era uma marcação de impedimento daquelas em que o jogador sairia sozinho na cara do goleiro. mas eu entendo o torcedor do jec: com um time tão insípido em criatividade e, consequentemente, na criação de jogadas de gol, torna-se necessário encontrar outros momentos para vibrar nas arquibancadas. e, convenhamos, foi bastante original a ocasião escolhida.
mas eu gostei mesmo na partida entre os dois times pelos quais eu torço nessa série a foi do goleiro do jec. esse rapaz, de nome agenor, tem um quê de neuer, o goleiro da alemanha, de tão exigido pelos próprios companheiro de time. pareceu-me, durante o jogo, que a jogada só poderia ser iniciada se houvesse uma bola recuada até ele, senão não valeria o lance. o guti, então, camisa três, tem fixação em voltar a bola ao goleiro e recebê-la no momento seguinte, para talvez voltar a recuar. quem sabe esteja aí uma nova oportunidade, à torcida do jec, de fazer tremer a arena joinville.

tirando isso, a partida foi normal, como têm sido as demais, no campeonato brasileiro, no qual a briga entre os times é visando a decidir, ao final dos noventa minutos, quem é o menos pior. e, na quarta-feira, o flamengo saiu vencedor, mesmo que não tenha conseguido ficar com a bola no pé por um minuto completo, igualmente ao jec. aliás, acrescento uma última constatação: a bola queima, eu tenho certeza. a cada rodada ela queima de modo mais intenso – tadinhos dos jogadores – e o nível do futebol brasileiro apaga-se, de rodada em rodada. contudo, nós, torcedores apaixonados por esse esporte, manteremo-nos presentes, seja nos estádios – ou elefantes brancos – distribuídos pelo país, seja em frente à tv, porque em uma partida é possível assistir a gols sem que para isso a bola precise entrar na goleira.

ítalo puccini