segunda-feira, 9 de março de 2015

VÂMO, ÍTALO, PORRA

            tenho vivido uma situação nova no que diz respeito a frequentar estádio de futebol: ouvir meu nome sendo falado praticamente a cada cinco minutos. isso porque agora há, no time do jec, um jogador homônimo a mim, algo ainda de difícil compreensão, afinal, meu nome é um nome pouco comum, né? não é toda criança que recebe o nome de ítalo – quantos ítalos você conhece? – mais ainda, não é toda criança que recebe o nome de ítalo e se torna jogadora de futebol – quantos ítalos você conhece que já jogaram no seu time do coração? – e não é toda criança que recebe o nome de ítalo e se torna jogadora de futebol e vem jogar no time da cidade na qual você mora.
            eis a experiência que tenho vivenciado.
            ontem, por exemplo, fui assistir a jec x metropolitano, e, na quarta-feira passada, a jec x chapecoense, ambas as partidas na arena joinville, ambas as partidas nas quais o meio campista ítalo começou como titular: nesta, com a camisa 7, naquela, com a 10. ítalo camisa 10, quem diria. e eu ali, nas cadeiras da arena, vendo o menino franzino a poucos metros de mim, saracoteando pra lá e pra cá, correndo, gingando, tentando uma jogada mais aguda de gol e, obviamente, errando algumas dessas tentativas, fato recorrente a qualquer jogador de futebol. e foi nesses momentos que vozes estranhas me assustaram, dirigindo-se ao meu homônimo, causando-me um estranhamento quem sabe natural diante de tais expressões:
            ISSO, ÍTALO!
            PASSA A BOLA, ÍTALO!
            VAI PRA CIMA DELES, ÍTALO!
            RÁPIDO, ÍTALO!
            BOA, ÍTALO!
            VÂMO, ÍTALO, PORRA!
expressões típicas de torcedores de futebol, para quem o amor e o ódio se fazem presentes quase simultaneamente, em questão de poucos segundos o sentimento muda. o ítalo jogador talvez saiba lidar bem com isso, talvez nem ouça os gritos que eu ouvi, ora de incentivo, ora de cobrança. mas eu não sou jogador de futebol e não sei lidar com gente berrando no meu ouvido o meu nome. os meus alunos, por exemplo, quando se sentem felizes ou frustrados com relação a alguma nota, a alguma aula, à correção que fiz dos seus textos, não verbalizam a mim o que estão sentindo, no máximo eu capto através dos seus olhares, das suas reações corpóreas, ou seja, tudo muito subjetivo. exatamente ao contrário do que eu agora tenho observado no campo de futebol, onde a subjetividade não tem lugar, onde todo torcedor descarrega as expectativas com relação à própria vida que leva, onde é muito fácil apontar o dedo, bater palma e gritar VÂMO, ÍTALO, PORRA!
aliás, agora que eu saí da arquibancada descoberta para a coberta – em função de o jec disputar a série a este ano e de eu não querer perder nenhum jogo por motivo de chuva, por exemplo – eu preciso aprender a lidar com o fato de que, a cada partida, eu terei ao meu lado e próximo a mim as mesmas pessoas e as primeiras impressões dos meus vizinhos não me foram as melhores. é como disse o fábio, quando comentei isso com ele: podia ser como no cinema, né, em que o silêncio é imprescindível.

podia. infelizmente não é. aquela gente sabedora de táticas, pelo visto, vai cornetar o tempo todo, e eu terei de aturar isso, afinal, eu escolhi mudar de setor para não perder nenhum jogo. porém, vou providenciar um radinho e um fone de ouvido, com volume muito alto, para não me enjoar com cada análise detalhada que esse pessoal faz ali na arquibancada e para não entrar em uma crise de personalidade, caso o jovem ítalo se mantenha no time. talvez isso me leve a escrever menos croniquetas futebolísticas, mas tudo bem, quem sabe eu venha a escrever uma sobre a importância do silêncio em uma partida de futebol. quem sabe.

 ítalo puccini

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