domingo, 22 de fevereiro de 2015

aquele jogo em que neymar fez o gol mais bonito daquele ano

um jogo de futebol é tudo na vida de uma pessoa. era noite de quarta-feira. aqui em minha casa. apartamento. enfim. eu me recordo do ano. 2011. foi a tal última visita de joão. veio jantar conosco. sem joão henrique. nesse dia ele me disse ter levado o filho, dias antes, para brasília, para passear um pouco por lá. e desconversou qualquer pergunta que fiz a respeito. até mesmo as que meus filhos fizeram. e João nunca foi de desconversar, exceto quando não queria contar algo, no sentido de estar escondendo mesmo. parecia ainda mais uma criança nesses momentos.
acho que me perdi na fala. não é agora que descreverei a incrível relação dele com crianças. nem falarei sobre joão henrique neste momento. agora quero lhe contar da noite em que assistimos ao primeiro tempo de um jogo aqui em casa e ao segundo tempo do mesmo jogo no bar. e ainda ao vt, aqui também. comemorando os gols como se fossem ao vivo. e quantos gols!
sóbrios, já perderíamos a conta. ébrios, então, como ficamos... foi assim.
começou o jogo e logo estávamos perdendo por 1x0. dali mais um pouco, por 2x0. e em meia hora de jogo já eram 3x0 pro santos. e dois seres esparramados no sofá, cada qual com sua latinha de cerveja, com um desânimo de fazer dormir logo, logo. nem xingamos mais quando no terceiro gol. até mesmo porque foi um dos gols mais bonitos já feito. até hoje é repetido por aí.
mas... obrigado, futebol, pela imprevisibilidade de cada dia. poucos minutos depois, o flamengo fez um gol. estávamos tão desligados que gritamos gol! com um pequeno atraso. coisa de poucos segundos. serviu para buscar uma nova latinha para cada um. e para nos sentarmos decentemente no sofá. e foi o tempo certo, pois logo dali veio o segundo gol do fla. este nós acompanhamos a jogada toda, e pulamos em comemoração. renascia a esperança de torcedor. que poderia ter sido abalada pelo pênalti que o outro time teve a seu favor. mas o cara lá bateu mal pra burro, e o nosso goleiro defendeu. johnny rui pra caramba disso. ele nunca se conformou com alguém não acertando um gol daquele tamanho, ainda mais de tão perto e sem ninguém na frente. era bem assim que ele dizia. e enquanto Johnny ria do fato, o flamengo fez o terceiro gol, empatando aquele jogo – então desanimador – ainda no primeiro tempo. nós pulávamos em frente à tv como duas crianças. thereza inclusive veio nos lembrar de que as crianças recém-haviam ido dormir. foi o que bastou para joão me pegar pelo braço e dizer:
- vamos assistir no bar o segundo tempo, amim!
rumamos na hora. a pé, é claro, acervejados como estávamos. chegamos ao bar e o santos fez 4x3. pedimos uma cerveja reclamando, quase voltando para casa. mas o bar estava cheio, o clima ótimo, aquela tensão de jogo, aquele som alto. não havia como sair de lá tão cedo.
o flamengo veio a empatar depois de uns minutos. uns vinte, acho. johnny já estava agoniado:
- é muito tempo sem gol, hachi.
até me chamara pelo nome, pra você ver.
e pouco depois de empatar veio o ponto alto do jogo (para nós, flamenguistas, é claro). o mengo fez 5x4. e segurou aquela vitória de outro planeta.
tu não tens noção do que aconteceu naquele bar. só eu derrubei dois copos de cerveja. teve cadeira voando, eu vi. e teve Johnny. um ser que saiu beijando e abraçando todo mundo, pulando no colo de gente alheia. é claro que levou tapas e empurrões. mas ele nem aí. era mais do que uma criança comemorando um gol no campinho do bairro. era Johnny.
acabou o jogo e continuamos bebendo, é claro. e comemorando. johnny gritava pra mim o mesmo que naquele primeiro jogo no maracanã:
- amim! é campeão, amim! é campeão!
dessa vez eu não expliquei nada. gritei junto com ele:
- é campeão, joão! é campeão, joão!
ele me olhou feio, claro. e eu disse que foi só pra rimar. e a festa continuou. com o hino a todo volume. tocando repetidas vezes. e só bem mais tarde é que johnny se deu conta:
- amim, que música é essa do flamengo que não acaba nunca?
só que ele perguntou isso em voz muito alta, ou seja, a maioria do pessoal ao redor ouviu. e rui. riu muito. porque o tom de fala de joão fazia sorrir qualquer um. inclusive ele mesmo. que riso gostoso ele tinha!
mandaram desligar o som e puxaram no gogó o hino do fla. batendo palmas. cantando todo mundo junto. joão sorria. uma felicidade que brilhava. e ali ele começou a cantar trechos. e pedia mais uma vez. e pedia para colocar o hino no aparelho de som. e dali algumas horas saímos do bar cantando até em casa, repetidas vezes, o hino. foi a noite em que joão aprendeu a cantar futebol.
mas a noite não acabou aí, não. teve um fechamento-de-bêbado.
chegando em casa, empacamos no sofá mesmo. quase que um amontoado sobre o outro. e Johnny sentou sobre o controle da tv, ligando-a. estávamos quase que dormindo já, mas a coincidência mundana é algo incrível. pois o canal ficou no mesmo de quando fomos para o bar. e ao ligarmos a tv, estava passando o jogo. o vt do jogo, na verdade.
mas naquele momento, àquela hora da madrugada já, bêbados e extasiados, comemoramos a sequência de gols do flamengo de novo, ainda discutindo qual dos cinco gols que era. até que apagamos.

ítalo puccini

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