quarta-feira, 2 de março de 2011

o tal do passe de letra



"Como a literatura, o futebol também guarda no seu baú histórias de todo tipo. O drama, a tragédia, a comédia, o suspense, tem para todos os gostos. E para cada uma delas há um narrador. O narrador não é apenas uma voz, é a alma da história. Um jogo de futebol não deixa de existir por não ter quem o narre. Ele está acontecendo lá, no campo, independentemente de alguém estar ou não contando o que se passa. Agora, cá entre nós, uma coisa posso lhe dizer, no segredo confessional das quatro linhas (da página): sem um bom contador de histórias, o jogo não vai ter a mesma graça."
Como duas paixões tão díspares como o futebol e a literatura podem se juntar? Ex-jogador que se tornou escritor, torcedor e crítico literário, professor universitário e técnico como tantos milhões de brasileiros, Flávio Carneiro mostra, em Passe de letra – Futebol & literatura, que “há mais coisas entre o céu e a pequena área do que supõe nossa vã filosofia” – e, justamente por isso, razões indefiníveis para a paixão. Já que não dá para explicá-la, Flávio prefere declarar seu amor incondicional à ‘redondinha’ através de suas reminiscências de infância e de ponta-direita na juventude, bem como das grandes emoções que um homérico Pelé, um lírico Garrincha ou mesmo um clown Dadá Maravilha lhe proporcionaram.
Para Flávio, Passe de letra foi a realização de um antigo sonho: unir suas duas paixões, futebol e literatura, num mesmo espaço, a partir de uma abordagem pessoal e memorialística de ambos os temas. Apaixonado por futebol desde criança, Flávio se dividiu entre a vontade de ser jogador de futebol profissional e ser escritor, este último desejo tendo surgido “do nada”, como conta em uma de suas deliciosas e emocionantes crônicas, particularmente as que relatam suas reminiscências de infância e sua relação com o esporte desde os onze anos, quando se tornou ponta-direita, no início dos anos 70, do Selefama Esporte Clube, um time de jovens formado com muito esforço e sacrifício por Fausto, ex-jogador do time goiano Vila Nova.
Entre suas lembranças, está a vez em que suas expectativas de conhecer Pelé na abertura de um jogo foram frustradas por um resfriado que o deixou de cama por dias. No bar de Fausto, a presença ilustre foi eternizada num pôster bem grande de Pelé com a turma do Selefama. Sem Flávio, claro. No final do texto, o leitor sofre com a tristeza do menino que jamais conseguiu conhecer seu ídolo.
Em meio a suas reminiscências “afetivo-futebolísticas”, Flávio Carneiro aproxima suas duas paixões traçando analogias entre o esporte e a literatura. Para ele, Garrincha dominava a arte da simplicidade e era tão lírico em campo quanto Drummond ou Bandeira em seus versos; Dadá Maravilha fazia graça com a bola, como um grande comediante; enquanto Pelé foi épico, com sua trajetória de superação e heroísmo. Vitoriosa é também a iniciativa do autor, que marca um verdadeiro gol de placa com a coletânea Passe de letra.

As crônicas reunidas em Passe de letra foram originalmente publicadas no jornal literário Rascunho, de Curitiba. A coletânea ganha fotos e ilustrações, além de orelha assinada por Luiz Fernando Veríssimo. O livro marca ainda o início da edição de todas as obras de Flávio Carneiro voltadas para o público adulto pela Editora Rocco.

copiado daqui.
fica a sugestão de leitura.

ítalo.

Um comentário:

Saulo disse...

Muito bom! Concordo com essa analogia do Flávio Carneiro.