sexta-feira, 1 de outubro de 2010

um torcedor que morre aos poucos



tenho comigo que um dia eu deixarei de acompanhar futebol como hoje acompanho. tenho comigo que um dia deixarei de torcer da maneira como hoje torço. tenho comigo que isso é um processo natural de vivência. tenho comigo que é o melhor que eu posso esperar para mim. porque continuar sentindo o futebol, da forma como ele está sendo feito, não é bom presságio. 


vejo meu pai. o torcedor que ele me descreve que era na década de 70, quando o fla pouco ganhou (a fase mais fanática). o torcedor que ela era na década de 80, quando o fla ganhou tudo o que podia (ainda fanático, mas um pouco menos). o torcedor que ele era na década de 90, quando o fla meio que não ganhou e ganhou alguma coisa (que torcia às vezes por algo). e o torcedor que ele é nesses anos 00, em que pouco importa o que o flamengo ganha ou não. 

é muito bonito o discurso do torcedor que é apaixonado, fanático, que morre pelo time. é lindo isso. mas é doentio. tão doentio quanto uma crença fanática em termos de religião. tudo que abrange o fanatismo é doentio. 

no final dos anos 90 eu chorava pelo flamengo. no início dos anos 00 eu chorava pelo flamengo. em vitórias e em derrotas. hoje, eu não choro mais. nem por vitórias, nem por derrotas. naquela época, eu acompanhava o fla diariamente, em rádios, jornais, televisão e internet. hoje, ainda acompanho, mas pouco, muito pouco. continuo tendo dezenas de camisas, e tudo que envolve o clube: chaveiros, canecas, calendários. tudo mesmo. cd's e dvd's. mas é puro "toc" de colecionador. sou assim com livros e cd's e dvd's. 

minha torcida não extrapola mais o respeito. muito menos o bom senso. como torcedor, eu não tenho mais rivais. e sim pessoas que torcem por outros clubes, iguais a mim. como torcedor, eu dou as costas a quem tenta me ofender pelo simples fato de eu torcer por um time. porque pessoas assim não merecem sequer torcer pelos times que torcem.

há uma morte em mim como torcedor. uma morte que ocorre aos poucos. e da qual não fujo. porque é preciso. seria preciso que todos os torcedores morressem a cada dia enquanto torcedores de clubes. o mundo seria melhor, acreditem.

diz o hino do clube pelo qual eu torço que uma vez, sempre. é assim mesmo. mas é assim com todos os torcedores de todos os clubes. fica lindo enquanto teoria. torna-se uma furada enquanto prática. o que muda é a intensidade, que quanto mais diminuir, melhor. 

esse dia primeiro de outubro foi um dia de luto para mim. morreu um pouco do torcedor que ainda está aqui em mim. porque a gente precisa escolher caminhos que nos façam se sentir bem. e viver o futebol tão de perto assim não é o melhor deles, com certeza.  

p.s.: para tornar claro: o que mais me entristece não é a saída do zico em si. no meu modo de ver, ele fez certo. saiu para se defender de acusações que não paravam de chover contra ele. por pura politicagem. o que mais me entristece é a cegueira de tantos ao desconfiarem de uma pessoa que apenas queria fazer as coisas do modo correto dentro de um clube. um clube que não seria metade do que foi sem ele. isso é o que mais dói. e dói mesmo, tenham certeza. 

ítalo.

Um comentário:

G. F. Busnardo (Gui) disse...

Pô Ítalo, tanto quanto pesado, algo assim, mas ficou muito legal.

É realmente difícil se imaginar torcendo pro Flamengo de modo exagerado. Confesso que nunca chorei por vitórias nem derrotas, mas sempre me considerei fanático a certo ponto.
Hoje, nem me importo muito mais se o flamengo ganha, perde ou empata. É difícil compreender como o time campeão brasileiro do ano anterior agora desputa o rebaixamento. Ta difícil de torcer, de assistir.

Abração!