terça-feira, 3 de agosto de 2010

A ignorância no outro lado da moeda

Geralmente quem acompanha e ama o futebol é taxado como ignorante, sem capacidade de ter prazer com outras coisas chamadas 'produtivas' ao invés de assistir a um “bando de homens correndo atrás de uma bola”. Mas talvez a ignorância esteja no outro lado da moeda neste caso.
Como qualquer outro esporte, o futebol pode ser fator de cultura e de educação. Porém, pela sua popularidade em níveis mundiais, ele se torna muito mais do que isso. É também um grande fator de interação e integração social sendo que várias crianças no mundo inteiro salvam-se da violência justamente por praticar esse esporte, que os ensina disciplina e coletividade. Além disso, um evento da grandiosidade de uma Copa do Mundo, por exemplo, dá emprego a vários cidadãos, movimenta a economia de um país – ou até de um continente –, e deixa legados importantíssimos, como no transporte, no turismo, na infra-estrutura e em termos de visibilidade.
Feliz ou infelizmente, esse esporte está presente na vida de todos, absolutamente todos. Perceba que em seu twitter, a metade dos TT's são relacionados a futebol, ligue a TV e assista à notícia de um título conquistado por um clube, saia de casa e observe quantas pessoas estão vestidas com seus “mantos sagrados”, pare de ler este texto e olhe para o sofá, e aí poderá ver seu pai/vô/marido/sobrinho/tio/filho completamente emocionado assistindo a uma partida de futebol, e sabe por quê? Porque ele ou ela ama ver um bando de homens correndo atrás de uma bola.
Flávio Moreira da Costa, jornalista, tradutor e escritor de livros literários, organizou um livro só com textos literários sobre o futebol. Vinte e dois autores e vinte e dois textos sobre futebol. Vinte e duas ficções sobre este esporte que é, segundo o próprio autor, no “Jogo preliminar” de seu livro (leia-se: introdução): “Dança, fenômeno; campo de grama e campo de violência; bolsa de valores em que jogadores funcionam como mercadoria; profissão e arte como possibilidades de ascensão social; ‘celeiro’ de craques e de ex-craques, vedetes de ontem e esquecidos de hoje; exemplos, ídolos e decepções para toda uma comunidade – no estranho mundo do futebol de tudo um pouco há” (no livro “22 contistas em campo”, editora Ediouro, 2006, p. 9).
O futebol está presente na literatura, assim como na música, por exemplo. Quem não é conhecedor da célebre “Uma partida de futebol”, cantada pelo Skank (link). E quem também não lembra de Chico Buarque cantando “Aqui na Terra estão jogando futebol” (link) e também “Para Mané para Didi para Mané; Mané para Didi para Mané para; Didi para; Pagão para Pelé e Canhoteiro” (link)? E voltando à literatura podemos chegar à Macunaíma, a mais conhecida obra de Mário de Andrade, que mostra como o futebol foi inventado pelos índios, antes de Cabral ainda. É ficção, claro, mas nada absurdo, não é mesmo?
O futebol é elemento tão cultural que permite justamente isto. Ser recriado. Ser musicalizado e ficcionalizado. O futebol merece ser discutido em sala de aula, merece ser discutido no almoço da família, merece ser discutido na fila do banco. Merece ser discutido, conversado, roteirizado. Merece discordância, sim, claro que sim. Afinal, além de toda unanimidade ser burra (não podemos fechar um texto envolvendo futebol, cultura e literatura sem citar Nelson Rodrigues), que graça teria se todos torcêssemos para o mesmo time, ou se considerássemos bom jogador só o camisa dez? O futebol pede diversidade. E, com isso, pede respeito, muito respeito. Respeito à cultura, à história, à tradição do outro. O futebol pode ensinar educação para as pessoas. Só não vê quem não quer. Só não vê quem prefere se esconder atrás de clichês e de homens correndo atrás de uma bola.

Ítalo Puccini
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caetano é guri novo. catorze anos. respira futebol vinte e quatro horas por dia. mora em pato branco, pr. em conversas via msn, contou a mim o quanto não encontra espaço para falar de futebol com seus professores, na escola em que estuda. contei a ele o quanto abro espaço com meus alunos para falar de futebol. chegamos a essa ideia comum, de que o futebol é, sim, elemento cultural importantíssimo para um povo. brotamos este escrito. e eu falei a ele: imprima várias cópias e sorrateiramente as distribua na sala dos professores de tua escola :))

2 comentários:

Rubens da Cunha disse...

hehe, mas que é um bando de homens correndo atrás de uma bola, é :)) mto bom seu texto...

Cleber Soares disse...

E ai italo, blz.
Muito o bom o texto.
a grande verdade é a seguinte.... só falam mal do futebol aqueles que não sabem respeitar a diversidade, aqueles que apenas ve como certo apenas os seus pontos de vista. O futebol como qualquer outra atividade, seja ela esportiva ou não, também tem seus defeitos, mas também tem seus méritos. Quem vê o futebol como uma atividade das classes "ignorantes" ou é um tremendo perna-de-pau, ou é um reacionário mesmo.

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