quarta-feira, 14 de julho de 2010

*Bruno e Eliza Bruno e Eliza

Bruno nasceu pobre. Vida complicada. A mãe tornou-se uma ausência. O futebol lhe deu fama, dinheiro, prestígio, festas, mulheres.

Eliza nasceu pobre. Vida complicada. A família era uma inexistência. Tinha um corpo saudável e pronto para ser usado. As boas relações lhe colocaram dentro do festivo mundo dos jogadores de futebol.

*Bruno nasceu pobre. Vida complicada. Sem pai. Mãe só de vez em quando. Catador de papel. Às vezes servente de pedreiro. Gasta o que ganha aumentando o barraco na invasão, mas também com festas e mulheres.

*Eliza nasceu pobre. Vida complicada. Abandonos desde sempre. Sempre teve um corpo saudável. Foi obrigada a usá-lo. As más relações a jogaram na esquina.

Eliza conheceu Bruno numa festa. Viu nele grandes possibilidades.

*Eliza conheceu Bruno na rua. Ele a convidou para ir até a sua casa. Não tinha dinheiro para o motel. A princípio nada viu nele.

Eliza tratou bem Bruno. Ele voltou e voltou e voltou. Estavam quase íntimos. Ela estava feliz.

*Eliza tratou bem Bruno. Ele voltou e voltou e voltou. Bruno disse que viver sozinho não era bom. Perguntou se ela não queria ficar por ali. Só teria que deixar a vida. Teria que catar papelão com ele. Estavam quase íntimos. Ela estava feliz.

Bruno bêbado. Eliza no período fértil.

*Bruno bêbado. Eliza no período fértil.

Eliza e o filho. Futuro certo. Bruno não gostou nada da ideia. Teria que resolver essa situação de um jeito ou de outro.

*Eliza e o filho. Futuro? Bruno não quis nem saber. Ela que fez, ela que criasse.

Eliza insiste. Ameaçou com polícia, justiça imprensa, escândalo. Usou todas as armas que tinha a disposição. Era o seu futuro em jogo.

*Eliza insiste. Parte para cima de Bruno. Apanha. Se cala.

Eliza insiste mais. Bruno se desespera. Chama o amigo, o amigo do amigo, um conhecido do amigo do amigo para dar um jeito na chata. Bruno não quer mais incomodação.

*Eliza desiste. Volta pra rua. Entrega o filho para doação. Depois de muito tempo, Bruno ainda se desespera com a gozação dos conhecidos. “Vou lá pegar a gostosa da tua mulher” ouviu de um. Teria que resolver essa situação.

Matam Eliza. O caso vai parar nos jornais, na TV. A mídia tem mais algumas semanas de alimento seguro. São horas debatendo, opinando, tornando a morte de Eliza um espetáculo. Show completo, com grandes reviravoltas, depoimentos surpreendentes. Bruno é preso. O espetáculo continua, ganha o noticiário do mundo. Todos comentam, alguns se compadecem de Eliza, de sua tentativa de futuro que não deu certo.

*Bruno mata Eliza na calçada. O crime ganha uma nota tímida num canto de página do jornal da cidade e é anunciado na TV com um texto de duas linhas.

O filho de Eliza iria ficar com o avô, mas este está respondendo um processo por estupro, então o menino foi destinado à avó. Uma religiosa neurótica. Talvez sobreviva.

*O filho de Eliza não é o que se pode chamar de criança linda. Ainda está no orfanato. Talvez sobreviva.
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crônica do rubens da cunha, publicada no jornal anotícia de hoje. link.
sem mais palavras.

6 comentários:

Caetano disse...

Bruno nasceu e se criou no meio da violência, a sociedade também é uma das culpadas. Mas isso não tira sua culpa.

Texto excelente!

http://analisefc.blogspot.com/

Léo Santos disse...

É... Notoriedade é coisa para os notórios né ô catarina... Ainda mais vendo assim através do paralelo que traçastes... Muito bom! Parabéns!

Bah! Tri bonito teu novo visual, ainda não tinha visto, poxa, estou te devendo visitas né... Perdoe-me a falta de tempo! É que estou estudando para um dia ser como tu!

Um abraço pra ti!

Eduardo Silveira disse...

sem palavra mesmo, cara.
texto incrível do Rubens, cravando sua crônica na ferida do.. do país, vá lá.

Moni. disse...

Se eu calar, não sou eu.
se eu falar diferente do que sinto, também não.

Mas também não vou me alongar.
Digo só que, ao contrário de ti, não acho isento não...

Mas... viva a liberdade de pensamento, de interpretação e blá, blá, bá...rs

Beijos

Tianne disse...

realidade em belas palavras...

Í.ta** disse...

moni, não vejo como este texto apresenta algo de isento ou não isento. acho que ele não se propõe a isto, não. apenas a apresentar uma outra realidade, uma outra forma de cobertura midiática. culpado x não culpado não entra aqui, a meu ver.

beijo!