sexta-feira, 21 de maio de 2010

Álbum de figurinhas, por Marcelo Lamas

o marcelo lamas é amigo literato e futebolístico. joguei uma vez só com ele. não por culpa dele, mas minha, que pouco, pouquíssimo jogo. foi aqui no vizinho, que tem um campo de futebol. meu maior contato mesmo com o lamas foi durante um curso de formação de escritores do sesc, em 08. ele é mais um daqueles que pode se envolver com tudo quanto é coisa nesse mundo (no bom sentido, né, marcelo?), mas não abre mão do futebol. e o texto dele é uma provinha disso. apreciem! - o título do texto é o título deste post. (ah, e como ele é tricolor gaúcho, vai em azul e preto, claro, o texto).
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Nesta época aparecem os álbuns da copa. E toda aquela turma que passa a amar o esporte bretão por um mês, a cada quatro anos. Neste caso, mais patriotas do que torcedores. Não é o meu caso.
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Sempre frequentei os estádios de futebol, sem distinção de divisões, como torcedor, como mascote e como jogador.
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Como torcedor aprendi que há três formas de assistir a uma partida. A primeira é vendo somente a bola, na qual muitos só vêem os gols. A outra é vendo “o jogo”, nos detalhes como o esquema dos dois times e os canhotos do time adversário.
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E tem a maneira especial, aquela em que vemos o jogo com o coração em cima da bola, enxergamos somente o nosso time jogar. Quando o jogo termina não lembramos sequer o nome do goleiro adversário, mesmo que ele tenha defendido três pênaltis. Eu sou assim.
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Como mascote, percebi a energia que vem das arquibancadas quando o time entra num estádio lotado. Por isso que treino é treino e jogo é jogo, e alguns jogadores amarelam quando mudam de time, de ambiente.
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O álbum da minha família tem uma série de figurinhas de futebol, na foto acima está o meu avô, o Chico “Lama”, na década de 1940 – o primeiro à direita, sentado. Na época, o futebol era diferente, a foto mostra o esquema de jogo, dois zagueiros, três meio-campistas e cinco atacantes.
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Certa vez, num treino do Farroupilha do RS, o atacante adversário avançou para a linha de fundo e eu cheguei na cobertura, com força desproporcional e joguei a bola por cima da arquibancada, para fora do estádio. O treinador parou o treino e me deu um sermão, dizendo que eu não deveria ter chegado com tanto entusiasmo, que poderia ter machucado o colega e ordenou que eu fosse buscar a bola.
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Eu saí do gramado, do portão do complexo esportivo e entrei no terreno ao lado, onde havia um ferro-velho – eu tinha vacina anti-tetânica. Demorou, mas consegui achar a bola. Quando voltei, estavam todos sentados num círculo. O professor de bigode branco me indagou:
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– Marcelo! Sabes por que todos aqui estão sentados?
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Acabrunhado, sacudi a cabeça, sinalizando que “não”. O velho, completou:
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– Todos estão te esperando, porque tu fazes parte deste time e se tu cometesses um erro, o erro é de todo mundo.
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E foi a única vez que eu vi uma ação verdadeiramente em equipe.
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O futebol não é somente um jogo.
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Marcelo Lamas, escritor e zagueiro do Apagão Futebol Clube.
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ítalo.

Um comentário:

Tiago Colorado disse...

Adoro o Lamas.
Ótimo escritor e tudo o mais, pena esse mau gosto futebolistico... hahaha