sábado, 21 de novembro de 2009

O que é isso: torcer. Por que isso: torcer.

A Moni, uma blogueira, deixou-me um comentário, aqui mesmo no Ópio do povo, muito bonito e sincero. Um comentário que me deixou pensando durante a semana sobre essas coisas do tipo: torcedor, paixão pelo futebol.
_________Escreveu assim a Moni: (fica em fonte menor apenas para diferenciar do meu texto)
_____“Sabe, Ítalo... Fico lendo aqui essa angústia dos líderes, ou daqueles, mesmo que não estejam na linha de frente, têm um arcabouço histórico de glórias que os colocam na mira o ano inteiro._____Será que isso é paixão?______Questionei porque se for, no meu caso, não de paixão, mas de amor, com o meu time local, hoje na terceira divisão (e quase que não fica...rs) é de uma trnquilidade que a paixão não dá. Paixão é inquietude, cobrança, tum-tum-tum desritmado. Amor é calmo e quase inabalável.______Este ano, o Ferroviário Atlético Clube - Ferrão, para nós, era o melhor time do campeonato cearense. Léo Jaime e Jardel no ataque nos davam uma pompa quase de realeza. Eram jogos lindos, gols inesquecíveis e corações que amavam, revivendo uma paixão. Não ganhou nada. Aquela coisa de "estar" o melhor, mas não conseguir "ser" o melhor._____Mas o interessante é a certeza do quanto isso não nos abalou, ainda que tenha entristecido, mas que há um amor que não nos permitiu xingar ninguém dentro de campo. No máximo nos permitiu sentir aquele "friozinho" na barriga, como se tivéssemos nos tornado de novo adolescentes..._____Saco de papo filosófico, né? Cadê a objetividade? E os resultados? E o campeonato? rsrs... Bom... foi manifestação de um sentimento sobre o futebol... É bom falar disso de vez em quando...______Abraços!”_____Um escrito despretensiosamente sensível e inquietante, que, repito, deixou-me pensando a semana toda nessa coisa que é o torcer por um time. O que me levou a ser flamenguista? O fato de, antes mesmo de saber da minha próxima existência, eu já ter uniforme e monte de coisas do Flamengo? O fato de meu pai acompanhar futebol praticamente 24 horas por dia, desde que se conhece por guri? E eu me recordo que uma vez, bem pequeno ainda, assistindo a um jogo do Fla contra o Bota, no qual o Bota ganhou, eu, na raiva, disse a ele que torceria pelo Botafogo. Mas isso não durou duas horas. Esqueci-me da derrota e já pensava no meu Flamengo o tempo todo. E eu me pergunto: por que isso? Da onde essa ligação? Por que eu passo a semana toda lembrando do último jogo do Fla, e já pensando no próximo? Pensando nas possibilidades de vitória, de empate, de derrota. Na alegria e na frustração que poderão me dominar após o jogo. Por que eu e tantos e tantos torcedores nos deixamos envolver tanto por essa coisa chamada futebol? Ou por essa coisa chamada torcer? De novo: de onde vem isso?
____E a questão levantada pela Moni: é paixão? Paixão, diz ela, “é inquietude, cobrança, tum-tum-tum desritmado. Amor é calmo e quase inabalável”. E eu, como torcedor, sou inquieto, cobrador, de coração desritmado. É paixão mesmo. Mas não teria como ser amor? Como ser algo tranqüilo? Teria, claro que teria. Mas eu não consigo, pelo menos não hoje em dia.
______Vejo meu pai. Já viu o Fla ganhar o mundo. E hoje, com mais de cinquenta, depois de ter visto o melhor Flamengo de todos os tempos, continua acompanhando todo campeonato, continua fazendo contas, continua vibrando pelos gols. Ele só fica menos frustrado do que eu em caso de derrotas. Minha esperança é de um dia ser como ele, nesse sentido: perder e deixar a vida seguir seu ritmo normalmente. Hoje, não consigo. Seja na vitória ou na derrota, fico remoendo-as interminavelmente.
_______Qual torcedor apaixonado que nunca chorou numa derrota ou numa vitória? Qual torcedor apaixonado que não ficou com o coração acelerado em algum jogo? Que não passou noites pré-jogo só pensando no bendito do jogo?
______Será que isso é bom, pergunto-me? Será que essa paixão pelo futebol faz bem, de fato, às pessoas? Essa coisa meio descontrolada que domina torcedores? Será que apenas acompanhar, sem torcer e se envolver tanto, não seria melhor? Penso nisso ao me deparar com tanta coisa suja no qual o futebol está envolvido. A violência não só dos torcedores, mas dos próprios jogadores. A picaretagem não só dos cartolas, mas dos próprios jogadores? Será que é preciso nos digladiarmos tanto, levarmos tão a sério isto, ao ponto de pessoas morrerem, ao ponto de o medo dominarmo-nos? Talvez seria mesmo bom torcer como a Moni diz torcer, por um amor que não permite xingar, mas somente sentir um frio na barriga, como adolescentes novamente. Ah, seria melhor, creio, seria.
_____Porém, é da condição humana o desejo de posse, o desejo de domínio perante os outros. E então que o futebol acaba se tornando isto: “eu sou melhor do que você porque meu time é melhor do que o seu, portanto me respeite ou te quebro”. E então que, para se obter sucesso, compra-se arbitragem, compram-se resultados em tribunais, duvida-se de tudo e de todos, e menospreza-se o vencedor quando não somos nós.
______E eu me pergunto outra coisa: por que continuo a acompanhar e a torcer tão ferrenhamente? E eu mesmo me respondo: por algo que não se explica, por uma sensação de frio na barriga, pela dúvida do resultado, por um sentimento de ingenuidade mesmo, de acreditar na alegria que o futebol ainda proporciona, por fazer como Pollyana e acreditar que há, também, muita coisa de bom nisto, muita beleza, muita alegria, muita emoção.
_______
E assim é. Sem entender, sem saber porque, ou imaginando não saber, assim é. Assim sou. Um torcedor que sente à flor da pele o ato de torcer.
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ítalo.

3 comentários:

Franccesco disse...

MUITO BOM FICOU ESTE TEXTO!
O melhor mesmo, parabéns!

A Moni. disse...

Poxa, Italo... Que bom saber que o meu comentário te conduziu à reflexão e mais que isso, a um texto tão bonito, emocionado, cheio de coração... E eu que achei que tava viajando naquele comentário...rs

Ontem senti o tum-tum-tum da paixão, quando quase no finalzinho do segundo tempo o meu Botafogo fez o gol da vitória contra o "melhor time do Brasil". Como eu me senti? Inevitavelmente como a torcedora do "melhor time do Brasil".

Acho que é bem isso que você falou. Uma alternância entre amor e paixão, porque há momentos em que o ritmo do coração ultrapassa qualquer controle racional e há outros em que, por amarmos, até nos chateamos com alguns resultados, mas em pouco tempo está tudo restabelecido, a paixão acalma e o amor aquieta o coração.

E tudo isso sem violência, sem desrespeito, porque amor maduro não comporta isso.

E vivamos o nosso frio na barriga, nossas intensas emoções, esse nosso "ópio"...

Adorei o texto, Ítalo!
Grande beijo!

Ana Carolina disse...

Excelente tópico. É esse sentimento que nos move, o amor pelo futebol... Orgulho de ter nascido no Brasil...