sábado, 24 de outubro de 2009

ainda a rodada: agora com xico sá

"O que querem times e mulheres
___
por Xico Sá, folha de são paulo de 23 de outubro
____
AMIGO TORCEDOR, amigo secador, quando um time começa a despencar feito bêbado ladeira abaixo, caso do favoritíssimo Palmeiras, todo mundo tenta explicar e alcança o mesmo resultado ao qual chegou o velho Freud na pretensão de entender o que queriam as mulheres. Chegou à conclusão sábia de que era impossível entendê-las.Afinal, o que querem as mulheres? Sábio judeu que era, o doutor Sigmund respondeu à dúvida mais antiga do mundo com outra pergunta. E esse mesmo anzolzinho de ponta- -cabeça, essa interrogação que nos atropela nas provas e provões da vida, segue tentando achar minhocas como iscas nos nossos cocurutos.
No futebol, como na versão mais ampla da existência, não dá para entender de bate-pronto o que se passa com alguém ou com um clube. Por isso a bela resposta do Casagrande, durante Santo André x Palmeiras, ao narrador Cléber Machado: "Não sei". Não dá para entender, ponto.
Quase imitou o Sócrates, o da democracia grega, não o genial Magrão da Democracia Corintiana: "Só sei que nada sei".
De tanto martelarem números, esquemas táticos infalíveis e teses objetivas na sua cabeça, o torcedor, seja do Palmeiras, seja do Fluminense, virou um paranoico que descrê na falibilidade do homem. Seja no particular, seja no coletivo.
E, se não sabemos o que querem os verdes, tampouco sabemos o que pretendem os rivais. Quantas chances São Paulo e Inter já desperdiçaram? O Galo, então, nem se fala, sempre engasga no torresmo das pequenas fatalidades. Como aquela pinga desatadora da coragem que teima em não descer direito. Tem noite em que o santo quer o gole maior para ele, coisas de um mundo assombroso e inegociável.
O Flamengo, que maravilha, como Andrade merece o reconhecimento, como o tiozinho sérvio dono da camisa 10 vale o título, mas veja quem vem pela frente: o Botafogo e toda a sua mística. Ganharia fácil de qualquer outro time nessa hora. E eis que o destino o deixa cara a cara com o alvinegro nascido da costela assombrada do corvo do Edgar A. Poe.
Pobre urubu, nunca foi tão difícil. Por ofício, claro, os colegas da imprensa e da latinha carecem ficar procurando explicações, teses e crises. Aqui de volta ao Parque Antarctica. O mesmo Muricy, deveras um grande técnico, é obrigado a mastigar, de uma hora para outra, o amendoim dos ressentidos; o Diego Souza ganha uma máscara; Edmilson, jogador de fino trato, já não serve mais para a tropa, e assim segue o rosário.É mais fácil o professor Belluzzo, o presidente-economista, explicar para leigos, em cinco minutos, a história da riqueza do homem -e as novas rodas da fortuna dos países emergentes- do que decifrar o processo da queda no Palestra.
Certo está o Casão. Não sei, não sabemos. É coisa dos defeitos de fabricação dos homens e as influências de esferas desconhecidas. Porque futebol, por mais que queiram os executivos de rapina, jamais será só business, negócio. Nunca perderá o mistério. Ou o amigo explica a derrota do Barça para um tal de Rubin, em pleno Camp Nou, nesta semana?
Sossega, amigo palmeirense, pois tudo que respira conspira, com o dizia o poeta polaco-curitibano Paulo Leminski".
_ _ _ _ _
ítalo.

Nenhum comentário: