sexta-feira, 18 de setembro de 2015

o momento após uma derrota

o sentimento de frustração por uma derrota do seu time, após um jogo sobre o qual você criou uma expectativa exagerada – como um bom e tolo torcedor – apresenta-se sendo de uma dificuldade das mais acentuadas com as quais o ser humano precisa aprender a conviver. porque as derrotas se avolumam ao passar dos dias de uma vida inteira, afinal de contas, hodierno, a volatilidade é característica marcante, sendo impossível os clubes de futebol dela escaparem. e ontem eu me sentei no sofá de casa, abri uma cerveja, um pacote de amendoim, o whatsap e o twitter – elementos antigos e modernos presentes na ação de assistir a um jogo de futebol – e percebi, no primeiro minuto de jogo, que a casa já tinha caído. aquela coisa de time venceu seis partidas seguidas e criou em mim, enquanto torcedor, a expectativa por, no mínimo, mais seis ou sete vitórias consecutivas - porque a cegueira é inerente a ato de torcer. e, na metade do primeiro tempo, já perdíamos por dois a zero, e os jogadores estavam mais nervosos em campo do que eu em casa. que puta frustração, cuja consequência traz consigo, em primeiro lugar, um momentâneo abandono das redes sociais, e, posteriormente, uma reflexão profunda sobre a própria vida, afinal, nós buscamos, nesses momentos, encontrar um sentido para a existência, por isso a necessidade de uma recapitulação detalhada de tudo o que seja possível lembrar: família, trabalho, amigos, finanças, lazeres e afins. hoje, inclusive, eu olhei novamente a tabela do brasileirão e já conjecturei três vitórias seguidas, provando que o amadurecimento é palavra distante na vida de um torcedor.

ítalo puccini

quarta-feira, 8 de julho de 2015

se7en

            gol da alemanha.
            eu não torci contra o brasil naquele jogo, no dia oito de julho do ano passado. eu não gosto de torcer contra algum time – no máximo sou capaz de ser a favor de outro que não seja o meu, mas torcer contra eu não dou conta. porém, naquele dia, há um ano, também não torci a favor da alemanha. eu fiquei neutro, consciente do milagre a ser realizado pela seleção brasileira em vencer a partida. logo, diante do contexto, o meu sentimento, a cada gol, foi de espanto. e de esperança: quem sabe ali estivesse o divisor de águas pro futebol brasileiro. ah, mas eu sou tolo. agora, um ano depois, considero válida toda forma de riso e deboche sobre o resultado, afinal, não foi uma tragédia – justificativa de muitos. tragédia é outra coisa, queridos. também, aquela goleada não ocorreu devido a um apagão do time, ela é o tombo inevitável de uma cultura futebolística arrogante, cujo discurso insiste em vocábulos como tradição, história, camisa.
gol da alemanha.
            aliás, o único motivo que me leva, hoje em dia, a torcer pelo brasil no futebol atende pelo nome de neymar. eu gosto desse menino, gosto da habilidade dele e da irreverência, aliada à coragem, em muitos lances. inclusive, considero uma injustiça ser ele, tendo apenas vinte e três anos, o capitão do time e ter sobre si toda a responsabilidade pelas jogadas de gol. e, com a ausência dele naquela semifinal, eu não tinha por que torcer pela seleção brasileira – ser torcedor do flamengo já me faz atingir o limite do estresse em acompanhar tanto jogador ruim vestindo a mesma camisa.
            gol da alemanha.
            é esse o motivo pelo qual torci pela argentina na copa do mundo e na copa américa: eles têm o melhor jogador do mundo nos últimos quase dez anos, o messi. pra mim, o mais decisivo e habilidoso do futebol mundial, a ser comparado atualmente apenas ao cristiano ronaldo – completo, porém, menos genial, a meu ver. e foi pelo messi que torci na copa do ano passado, uma pena ele não a ter vencido. na verdade, azar da copa zico e messi – este último até agora – não serem seus campeões.
            gol da alemanha.
            por esse motivo, citado no parágrafo anterior, tenho de lidar com alguns torcedores apaixonados pela seleção brasileira e o principal argumento do qual se utilizam: vai morar na argentina, então. ao que eu respondo: não vou, obrigado. mais ainda: não vou porque não sou obrigado. e além disso: não vou porque não sou obrigado a torcer pela seleção do país onde nasci. ela não me representa, ela é apenas o agrupamento de jogadores nascidos num mesmo lugar, porém, diante da acentuada globalização vivenciada por nós, tal segmentação territorial perde seu sentido e chega ao limite da ignorância argumentativa, que é a obrigatoriedade bairrista. o futebol tenta ser bastante ditatorial, às vezes.
            gol da alemanha.
            o último momento quando torci pelo brasil em alguma copa do mundo foi na de dois mil e dois. inclusive, recentemente assisti aos gols das sete vitórias naqueles sete jogos no japão e na coréia e senti saudade daquele time – lembro-me das nossas reclamações, à época, ao rivaldo. pobre de nós, mal sabíamos quem seriam as ruindades de hoje em dia. e, do mesmo modo como atualmente torço pela argentina, em dois mil e seis eu torci por zidane e sua frança e, em dois mil e dez, pela espanha e sua equipe envolvente. sendo assim, não sei para quem torcerei em dois mil e dezoito, afinal, vivo numa democracia que me permite tal escolha puramente individual, contra a qual não encontrei argumento capaz de me fazer mudar de ideia.
            gol da alemanha.
            até mesmo porque o futebol mundial tem se apresentado muito mais interessante a ser assistido. e a culpa da insuficiência técnica dos nossos campeonatos pode ser creditada aos torcedores imediatistas, aos cartolas nacionais e sua politicagem visando a lucros pessoais, à imprensa bajuladora, à comissão técnica arrogante, todos incapazes de projetar uma melhora através de mudanças a longo prazo. somos o país no qual os times – em sua maioria – não conseguem trocar dez passes ou ficar um minuto com a bola nos pés; o país onde três derrotas consecutivas são suficientes para demitir um técnico; o país que veste a camisa da sua seleção de quatro em quatro anos e ainda se considera patriota.
            gol da alemanha.
            assisti ao filme “se7en”, nos últimos dias – um número agora representativo da nossa cultura futebolística. é um bom filme de ação e suspense, mas eu esperava mais dele, levando em conta a sinopse. gosto das atuações do brad pitt, ele, mesmo bastante novo, atua bem neste, assim como o – já em noventa e cinco – veterano samuel l. jackson. é um filme no qual os jogos mortais parecem ter se inspirado, tamanha semelhança entre os “vilões”, entre aspas justamente porque as justificativas dos chamados serial killers questionam a brutalidade envolvida em cada assassinato, fazendo-nos repensar, talvez, a dualidade vilão versus herói, maldade versus bondade. e está aí o interessante do filme, essa possibilidade de repensar certezas. um questionamento que eu esperava encontrar no futebol brasileiro há um ano, porém, o discurso arrogante, prepotente e cego se mantém atual e, parece, indissolúvel.
            gol do brasil.

            alguém lembra do gol do oscar?

ítalo puccini

sexta-feira, 3 de julho de 2015

o gol do jogo

            aos trinta minutos do primeiro tempo, mais ou menos, saiu o gol do jogo na arena joinville, na última quarta-feira. após sucessivos lances nos quais a torcida do jec esbravejou contra a arbitragem, pela não marcação de possíveis faltas favoráveis ao time local, eis que o bandeirinha assinalou um impedimento em um lance de ataque do flamengo. o estádio veio abaixo. foi bonito de ver, apesar de, no momento, eu ter ficado um pouco confuso, perguntando-me se havia perdido algum lance magnífico em algum outro ponto do campo. o fox, então, disse-me: eis o gol do jogo.
            aliás, eu e o fox assistimos à peleja nas cadeiras, ou seja, entre torcedores do jec, como se fôssemos um deles – enquanto o pai e o fran vestiram o manto rubro-negro e foram ao setor visitante, como bons flamenguistas. bem verdade que em trinta e seis jogos do joinville nessa primeira divisão eu torcerei a favor, apenas em dois abrirei uma exceção, afinal, uma vez flamengo, sempre e em primeiro lugar, flamengo. então, ficamos camuflados no meio dos demais jequeanos, algo não muito difícil de se fazer – já cansei de torcer pelo fla estando na torcida do coxa, do paraná ou do atlético-pr, por exemplo. porém, em nenhuma delas eu observo o complexo de inferioridade que envolve a arena joinville, fator preponderante, a meu ver, para a vibração proveniente de uma marcação de impedimento.
a mania de perseguição impera nos torcedores representantes da maior torcida do estado de santa catarina, algo por si só contraditório. e os culpados, para eles, são vários: globo, rbs, cbf, federação catarinense de futebol, times de torcida grande e arbitragem. eu gosto do jec, torço pelo sucesso do jec, pago mensalidade como sócio do jec, mas não compactuo de tal atitude vitimada. nas arquibancadas, observo, impera o ódio contra o outro, os argumentos tornam-se escassos e tolo sou eu em esperar coerência em um estádio de futebol, eu sei.
analisando agora, mais de vinte e quatro horas depois da partida, aquele lance mencionado no início desta croniqueta – que a intitula, inclusive – eu alcanço algumas interpretações possíveis para tamanha comemoração por parte da torcida local a um lance tão comum no futebol, a partir do qual pouco se tem a comemorar, afinal, não era uma marcação de impedimento daquelas em que o jogador sairia sozinho na cara do goleiro. mas eu entendo o torcedor do jec: com um time tão insípido em criatividade e, consequentemente, na criação de jogadas de gol, torna-se necessário encontrar outros momentos para vibrar nas arquibancadas. e, convenhamos, foi bastante original a ocasião escolhida.
mas eu gostei mesmo na partida entre os dois times pelos quais eu torço nessa série a foi do goleiro do jec. esse rapaz, de nome agenor, tem um quê de neuer, o goleiro da alemanha, de tão exigido pelos próprios companheiro de time. pareceu-me, durante o jogo, que a jogada só poderia ser iniciada se houvesse uma bola recuada até ele, senão não valeria o lance. o guti, então, camisa três, tem fixação em voltar a bola ao goleiro e recebê-la no momento seguinte, para talvez voltar a recuar. quem sabe esteja aí uma nova oportunidade, à torcida do jec, de fazer tremer a arena joinville.

tirando isso, a partida foi normal, como têm sido as demais, no campeonato brasileiro, no qual a briga entre os times é visando a decidir, ao final dos noventa minutos, quem é o menos pior. e, na quarta-feira, o flamengo saiu vencedor, mesmo que não tenha conseguido ficar com a bola no pé por um minuto completo, igualmente ao jec. aliás, acrescento uma última constatação: a bola queima, eu tenho certeza. a cada rodada ela queima de modo mais intenso – tadinhos dos jogadores – e o nível do futebol brasileiro apaga-se, de rodada em rodada. contudo, nós, torcedores apaixonados por esse esporte, manteremo-nos presentes, seja nos estádios – ou elefantes brancos – distribuídos pelo país, seja em frente à tv, porque em uma partida é possível assistir a gols sem que para isso a bola precise entrar na goleira.

ítalo puccini 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

eu odeio o fluminense


isto porque o amor e ódio se imanam nas fogueiras das paixões, conforme a elis regina cantava. e, sendo o fla um aprimoramento do flu – uma vez que o time de futebol daquele foi formado a partir do time de futebol deste – amor e ódio são duas palavras perfeitas para retratar o que eu sinto pelos dois: eu amo o fla e odeio o flu.
segundo nelson rodrigues, o flaxflu começou 40 minutos antes do nada.
para chico buarque, ser flamengo é, no mínimo, falta de imaginação.
e eu digo, enquanto um bom rubro-negro, que o flu abriu fronteiras no futebol, explorando novos campos: as séries b e c.
meu desgosto profundo pelo fluminense ocorre por alguns motivos racionais, tais como o fato de o clube ser o rei da maracutaia (paguem a série b, porra!) ou em função do discurso prepotente de que “somos a torcida mais bonita, mais elegante, mais fina” mais preconceituosa também.
mas meu verdadeiro ódio se deve a causos não racionais. não se explica porque se ama algo, da mesma forma com relação ao sentimento oposto. ou seja, eu não sei bem o porquê, mas eu o odeio. talvez eu inclusive esteja dando importância demais a este clube de várias divisões, mas e daí?! o futebol é irracional por natureza, ser torcedor, mais ainda.
            o pai esteve, por exemplo, no maracanã naquele flaxflu de 85, no qual a torcida do flamengo sentia que algo estava por acontecer. não arredou pé do estádio, até que, aos 45 do segundo tempo, o leandro acertou um balaço do meio da rua e empatou o jogo. foi festejado como título aquele gol. e uma semana depois o flamengo conseguiria perder para o bangu e ver o flu ser tricampeão estadual. ou seja, na época em que nós mais vencemos campeonatos – no brasil e no mundo –, na época em que nosso time era o melhor do país durante anos, nós não conquistamos título em cima deles. eis o futebol.
            eu nem era nascido, e eu escrevo utilizando a primeira pessoa do plural. grande coisa. antes mesmo de nascer eu já amava o fla e, por consequência, odiava o flu, portanto, eu participei daquela época vitoriosa, eu já era flamengo porque eu já tinha uniforme do fla pronto pra usar, assim que eu nascesse.
            nasci, comemorei muitos títulos desde então – muitos! – mas ainda falta um: falta ver o meu mengo vencer o time da série b na final de um campeonato, ao vivo, no maracanã. é o único motivo que me levaria ao rj para assistir a um jogo novamente. chega de ganhar do vasco e do botafogo. chega de ganhar copa do brasil de outros times. chega de ganhar taça guanabara. chega de ver o fluminense na série a sem ter subido pela série b.
            e chega de escrever. tou irritado já.
            vou voltar a este vídeo, a este brilhante documentário em que renato terra retratou o flaxflu da maneira mais humana que seria possível retratar: não há razão nos argumentos das pessoas que participam dele, e não-haveria-como-haver. o flaxflu é o que há de mais irracional no futebol. impossível ficar indiferente a isso. impossível ficar indiferente aos gols de falta do zico. ao gol de barriga (ou de mão?) do renato gaúcho. à série b que ainda não foi paga.
            o meu canto gregoriano é mais forte que o teu, torcedor tricolor. por isso:
MEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEENGOOOOOOOOOOOOOO

ítalo puccini

segunda-feira, 9 de março de 2015

VÂMO, ÍTALO, PORRA

            tenho vivido uma situação nova no que diz respeito a frequentar estádio de futebol: ouvir meu nome sendo falado praticamente a cada cinco minutos. isso porque agora há, no time do jec, um jogador homônimo a mim, algo ainda de difícil compreensão, afinal, meu nome é um nome pouco comum, né? não é toda criança que recebe o nome de ítalo – quantos ítalos você conhece? – mais ainda, não é toda criança que recebe o nome de ítalo e se torna jogadora de futebol – quantos ítalos você conhece que já jogaram no seu time do coração? – e não é toda criança que recebe o nome de ítalo e se torna jogadora de futebol e vem jogar no time da cidade na qual você mora.
            eis a experiência que tenho vivenciado.
            ontem, por exemplo, fui assistir a jec x metropolitano, e, na quarta-feira passada, a jec x chapecoense, ambas as partidas na arena joinville, ambas as partidas nas quais o meio campista ítalo começou como titular: nesta, com a camisa 7, naquela, com a 10. ítalo camisa 10, quem diria. e eu ali, nas cadeiras da arena, vendo o menino franzino a poucos metros de mim, saracoteando pra lá e pra cá, correndo, gingando, tentando uma jogada mais aguda de gol e, obviamente, errando algumas dessas tentativas, fato recorrente a qualquer jogador de futebol. e foi nesses momentos que vozes estranhas me assustaram, dirigindo-se ao meu homônimo, causando-me um estranhamento quem sabe natural diante de tais expressões:
            ISSO, ÍTALO!
            PASSA A BOLA, ÍTALO!
            VAI PRA CIMA DELES, ÍTALO!
            RÁPIDO, ÍTALO!
            BOA, ÍTALO!
            VÂMO, ÍTALO, PORRA!
expressões típicas de torcedores de futebol, para quem o amor e o ódio se fazem presentes quase simultaneamente, em questão de poucos segundos o sentimento muda. o ítalo jogador talvez saiba lidar bem com isso, talvez nem ouça os gritos que eu ouvi, ora de incentivo, ora de cobrança. mas eu não sou jogador de futebol e não sei lidar com gente berrando no meu ouvido o meu nome. os meus alunos, por exemplo, quando se sentem felizes ou frustrados com relação a alguma nota, a alguma aula, à correção que fiz dos seus textos, não verbalizam a mim o que estão sentindo, no máximo eu capto através dos seus olhares, das suas reações corpóreas, ou seja, tudo muito subjetivo. exatamente ao contrário do que eu agora tenho observado no campo de futebol, onde a subjetividade não tem lugar, onde todo torcedor descarrega as expectativas com relação à própria vida que leva, onde é muito fácil apontar o dedo, bater palma e gritar VÂMO, ÍTALO, PORRA!
aliás, agora que eu saí da arquibancada descoberta para a coberta – em função de o jec disputar a série a este ano e de eu não querer perder nenhum jogo por motivo de chuva, por exemplo – eu preciso aprender a lidar com o fato de que, a cada partida, eu terei ao meu lado e próximo a mim as mesmas pessoas e as primeiras impressões dos meus vizinhos não me foram as melhores. é como disse o fábio, quando comentei isso com ele: podia ser como no cinema, né, em que o silêncio é imprescindível.

podia. infelizmente não é. aquela gente sabedora de táticas, pelo visto, vai cornetar o tempo todo, e eu terei de aturar isso, afinal, eu escolhi mudar de setor para não perder nenhum jogo. porém, vou providenciar um radinho e um fone de ouvido, com volume muito alto, para não me enjoar com cada análise detalhada que esse pessoal faz ali na arquibancada e para não entrar em uma crise de personalidade, caso o jovem ítalo se mantenha no time. talvez isso me leve a escrever menos croniquetas futebolísticas, mas tudo bem, quem sabe eu venha a escrever uma sobre a importância do silêncio em uma partida de futebol. quem sabe.

 ítalo puccini

domingo, 22 de fevereiro de 2015

aquele jogo em que neymar fez o gol mais bonito daquele ano

um jogo de futebol é tudo na vida de uma pessoa. era noite de quarta-feira. aqui em minha casa. apartamento. enfim. eu me recordo do ano. 2011. foi a tal última visita de joão. veio jantar conosco. sem joão henrique. nesse dia ele me disse ter levado o filho, dias antes, para brasília, para passear um pouco por lá. e desconversou qualquer pergunta que fiz a respeito. até mesmo as que meus filhos fizeram. e João nunca foi de desconversar, exceto quando não queria contar algo, no sentido de estar escondendo mesmo. parecia ainda mais uma criança nesses momentos.
acho que me perdi na fala. não é agora que descreverei a incrível relação dele com crianças. nem falarei sobre joão henrique neste momento. agora quero lhe contar da noite em que assistimos ao primeiro tempo de um jogo aqui em casa e ao segundo tempo do mesmo jogo no bar. e ainda ao vt, aqui também. comemorando os gols como se fossem ao vivo. e quantos gols!
sóbrios, já perderíamos a conta. ébrios, então, como ficamos... foi assim.
começou o jogo e logo estávamos perdendo por 1x0. dali mais um pouco, por 2x0. e em meia hora de jogo já eram 3x0 pro santos. e dois seres esparramados no sofá, cada qual com sua latinha de cerveja, com um desânimo de fazer dormir logo, logo. nem xingamos mais quando no terceiro gol. até mesmo porque foi um dos gols mais bonitos já feito. até hoje é repetido por aí.
mas... obrigado, futebol, pela imprevisibilidade de cada dia. poucos minutos depois, o flamengo fez um gol. estávamos tão desligados que gritamos gol! com um pequeno atraso. coisa de poucos segundos. serviu para buscar uma nova latinha para cada um. e para nos sentarmos decentemente no sofá. e foi o tempo certo, pois logo dali veio o segundo gol do fla. este nós acompanhamos a jogada toda, e pulamos em comemoração. renascia a esperança de torcedor. que poderia ter sido abalada pelo pênalti que o outro time teve a seu favor. mas o cara lá bateu mal pra burro, e o nosso goleiro defendeu. johnny rui pra caramba disso. ele nunca se conformou com alguém não acertando um gol daquele tamanho, ainda mais de tão perto e sem ninguém na frente. era bem assim que ele dizia. e enquanto Johnny ria do fato, o flamengo fez o terceiro gol, empatando aquele jogo – então desanimador – ainda no primeiro tempo. nós pulávamos em frente à tv como duas crianças. thereza inclusive veio nos lembrar de que as crianças recém-haviam ido dormir. foi o que bastou para joão me pegar pelo braço e dizer:
- vamos assistir no bar o segundo tempo, amim!
rumamos na hora. a pé, é claro, acervejados como estávamos. chegamos ao bar e o santos fez 4x3. pedimos uma cerveja reclamando, quase voltando para casa. mas o bar estava cheio, o clima ótimo, aquela tensão de jogo, aquele som alto. não havia como sair de lá tão cedo.
o flamengo veio a empatar depois de uns minutos. uns vinte, acho. johnny já estava agoniado:
- é muito tempo sem gol, hachi.
até me chamara pelo nome, pra você ver.
e pouco depois de empatar veio o ponto alto do jogo (para nós, flamenguistas, é claro). o mengo fez 5x4. e segurou aquela vitória de outro planeta.
tu não tens noção do que aconteceu naquele bar. só eu derrubei dois copos de cerveja. teve cadeira voando, eu vi. e teve Johnny. um ser que saiu beijando e abraçando todo mundo, pulando no colo de gente alheia. é claro que levou tapas e empurrões. mas ele nem aí. era mais do que uma criança comemorando um gol no campinho do bairro. era Johnny.
acabou o jogo e continuamos bebendo, é claro. e comemorando. johnny gritava pra mim o mesmo que naquele primeiro jogo no maracanã:
- amim! é campeão, amim! é campeão!
dessa vez eu não expliquei nada. gritei junto com ele:
- é campeão, joão! é campeão, joão!
ele me olhou feio, claro. e eu disse que foi só pra rimar. e a festa continuou. com o hino a todo volume. tocando repetidas vezes. e só bem mais tarde é que johnny se deu conta:
- amim, que música é essa do flamengo que não acaba nunca?
só que ele perguntou isso em voz muito alta, ou seja, a maioria do pessoal ao redor ouviu. e rui. riu muito. porque o tom de fala de joão fazia sorrir qualquer um. inclusive ele mesmo. que riso gostoso ele tinha!
mandaram desligar o som e puxaram no gogó o hino do fla. batendo palmas. cantando todo mundo junto. joão sorria. uma felicidade que brilhava. e ali ele começou a cantar trechos. e pedia mais uma vez. e pedia para colocar o hino no aparelho de som. e dali algumas horas saímos do bar cantando até em casa, repetidas vezes, o hino. foi a noite em que joão aprendeu a cantar futebol.
mas a noite não acabou aí, não. teve um fechamento-de-bêbado.
chegando em casa, empacamos no sofá mesmo. quase que um amontoado sobre o outro. e Johnny sentou sobre o controle da tv, ligando-a. estávamos quase que dormindo já, mas a coincidência mundana é algo incrível. pois o canal ficou no mesmo de quando fomos para o bar. e ao ligarmos a tv, estava passando o jogo. o vt do jogo, na verdade.
mas naquele momento, àquela hora da madrugada já, bêbados e extasiados, comemoramos a sequência de gols do flamengo de novo, ainda discutindo qual dos cinco gols que era. até que apagamos.

ítalo puccini

domingo, 15 de junho de 2014

quero ver o messi campeão do mundo


e é só por isso que, nessa copa, eu torço pelos hermanos.
(opa! gol da croácia. que chato, não?)
eis a copa do mundo para mim, um período que extrapola o inferno astral costumeiro em determinado período de um ano, tornando-se um martírio que me cansa só de olhar a efervescência futebolística em que se transforma o país. é o ponto alto do falso patriotismo. é muito pra eu dar conta e fingir que está tudo bem.
torcer contra não me satisfaz. faço pouco caso da seleção brasileira, apenas. na última copa, por exemplo, encantei-me pela espanha e fui com ela até o final, vibrando o merecido título. agora, quatro anos depois, já me cansei do futebol tiki-taka. quero algo mais agressivo e ao mesmo tempo puro encanto, eficiente e clássico, dinâmico e leve. quero, portanto, ver o messi sendo campeão mundial, para não ocorrer a um dos maiores gênios do futebol a infelicidade que viveu zico, em não levantar uma copa do mundo. porém, caso não dê para a argentina, tenho um apreço também muito grande pela seleção alemã, que há no mínimo três copas vem merecendo o título. contudo, nada disso me levará a comprar camisa ou apetrechos selecionáveis. minha torcida é discreta, é casual, é momentânea. provavelmente, mudará na próxima copa, a não ser que o futebol messiânico (ops) se mantenha encantador até lá.
inclusive, já escrevi, um tempo atrás, sobre isso de ser um torcedor camaleão. é algo que me faz bem, que me possibilita encarar o esporte com outros olhos, de uma maneira mais fria, sim, porém mais agradável a mim. exemplos: comemorei o título corinthiano da libertadores e hoje não vejo graça nenhuma naquele time comandado por mano menezes; virei a casaca ao admirar mais o futebol do real madrid ao do barcelona; e sou inclusive capaz de torcer pelo rebaixamento do flamengo, caso o time continue jogando do modo estapafúrdio e vergonhoso como está.
(opa! o apito amigo acabou de dar o ar da graça. neymar, de pênalti-inexistente, vira para o brasil. e, diante disso, vou eu levar a sério o futebol?)
enquanto joga o brasil, eu escrevo. e leio. leio caio fernando abreu cronicando de maneira tão pessoal que me seduz a escrever. isto porque caio escreve sem medo com o que vão pensar, escreve sem imaginar que está sendo lido, escreve como forma de expressar o que sente e pensa. e só. é a escrita cumprindo com o seu papel, uma vez que aquele texto, depois de lançado aos lobos, será devidamente devorado, não cabendo mais ao escritor participação alguma além daquilo que foi dito.
caio é, por vezes, muito melancólico. disso não gosto. porém, a sua escrita me soa tão sincera que, mesmo não me agradando o tom dela, leio-a, com vontade, uma crônica atrás da outra, inebriando-me de sensibilidade e de agressividade também. tão contraditório, tão caio fernando de abreu. tão futebol.
tão família: minha mãe dorme durante os jogos da copa, incluindo os do brasil. invejo-a; meu pai desencantou-se com a seleção brasileira após a perda da copa de 82 – na deste ano, é declarado torcedor da itália; meu irmão, dois anos mais novo do que eu, torcerá por portugal; e o caçula, de onze anos, afirmou-se encantando pela alemanha, pra ele, o melhor elenco da copa – tão novinho, e tão entendedor de futebol.
aliás, o luigi eu admiro. na teoria, ele é corinthiano, não adiantando nossos esforços, há alguns anos, para que se tornasse flamengo. entretanto, na prática, ele faz pouco caso do clube paulista. do que ele gosta mesmo é de acompanhar o vai e vem dos jogadores entre os times, é de saber do placar das partidas, analisar elencos, não se interessando pelos jogos em si, muito menos comemorando gols ou sofrendo por derrotas. eu também o invejo. ligado ao esporte e assim desapegado de sentimentos futebolísticos. acredito que será muito mais feliz do que tantos supostos apaixonados torcedores, que não entendem o esporte como um entretenimento. (eu era um desses. eu não separava da minha vida o resultado. eu vivia momentos de ansiedade pré-jogo e de euforia/depressão após o mesmo. quanta adrenalina à toa, hoje creio.)
(opa! oscar, o contestado, faz três a um. )
caio, o contestado, fazia análise. eu também. e na análise eu cheguei e falei: tou puto. esse clima de copa do mundo me deixa extremamente irritado. e olha que eu gosto muito de futebol, desde a infância. e blá blá blá. foi uma sessão bastante produtiva, geradora de novas angústias, o que, em se tratando de processo terapêutico psicanalítico, é salutar. e ajudou-me no sentido de que saí de lá não somente mais calmo e ao mesmo tempo ainda angustiado, como também com a ciência de que a copa do mundo é apenas uma fuga da minha ira. o caso é bem mais profundo, ele envolve uma dificuldade de relacionar-me socialmente, ele envolve situações nas quais me sinto exposto, tendo a minha privacidade invadida pelo desrespeito alheio, e ele envolve minha fraqueza em encarar tais situações, em bater de frente com o outro, quase literalmente, se preciso.

diante de tudo isso, saí do consultório mais confiante em defender minha torcida a favor da argentina, não necessariamente contra o brasil – seria, inclusive, bonito uma final entre as duas seleções. aí, sim, eu torceria a favor daquela e contra esta. mas é tudo puramente gosto, questão de apreço por um e não pelo outro. apenas isso. e eu acredito que seja permitido acompanhar futebol assim, tão luigi, tão desapegado, tão contraditório, tão caio fernando abreu, tão esta croniqueta. tão nós.

ítalo.